Queridos,

Por estar muito envolvida com questões de criatividade e inovação nas empresas e na academia, tenho pensado muito sobre o mindset de “autor”. Penso que esta questão é muito relevante em tempos de cocriação e open innovation, embora possa parecer paradoxal. Quanto melhores forem as entregas individuais, maior a chance da criação coletiva ser rica. E também, quanto mais me reconheço como autor de algo (e deste algo me orgulho), maiores as chances de que a inovação ocorra de forma mais natural e fluida, na sociedade, nas empresas e em nossas vidas. Inovação esta que não começa de outra forma senão pela imaginação.
E ainda que a imaginação possa ser compartilhada e enriquecida (claro!), ela começa na mente. 
Em uma mente.
Lendo uma entrevista com Lorenzo Mammi (reconhecido crítico de arte do Brasil), fico pensando no papel do Design na arte contemporânea. Ou melhor, no papel do Design na criação de significados. E no papel do Design como simulacro, como código que nos afasta da experiência direta. Deixo alguns trechos para vocês se deliciarem…
Primeiro, uma boa definição de ARTE:

Arte é a “possibilidade de gerar experiências significativas a partir de objetos singulares” - Lorenzo Mammi
SOBRE A AUTONOMIA DA OBRA DE ARTE
O que tento defender no decorrer dos ensaios é que a autonomia da arte nunca foi um campo separado em que você colocava as obras de arte.  Sempre foi algo que surge dentro da obra, se bem sucedida, no sentido que ela desfaz as categorias pré-existentes e obriga à criação de outras categorias a partir dela. A obra de arte não é uma coisa que você interpreta a partir do horizonte do mundo. Você interpreta o mundo a partir dela.
A arte está virando hoje o único lugar, ou o lugar privilegiado, onde é possível uma experiência real do mundo, embora ela não chegue a se constituir em sistemas como na arte moderna clássica ou mesmo no começo da arte contemporânea.  Então o que se afirmam são experiências pessoais individualizadas, mas muito intensas.
SOBRE A DISTÂNCIA ENTRE INFORMAÇÃO E A EXPERIÊNCIA DIRETA
Esse lugar da experiência verdadeira é aquilo que a arte ainda garante numa cultura em que a informação é um pouco simulacro de si mesma, em que nunca há o momento em que a informação se torna experiência. Essa noção de verdade do mundo é fundamental. A arte está longe de se tornar obsoleta, embora sempre esteja falando de um lugar precário, de um lugar que está no limite, do inexistente. O problema não é tanto a commodity em si, a comercialização da arte, porque bem ou mal ela sempre foi um objeto precioso, de status. É mais o fato de ela ir na contramão de outro tipo de conhecimento do mundo que temos, de informações que se relacionam com outros tipos de informações que nunca chegam à experiência direta.
De repente, me deu vontade de sair por aí registrando estes momentos em que “a informação se torna experiência”…
Durante muito tempo os designers sofreram tentando se enquadrar ora em ARTE, ora e CIÊNCIA. Tive um professor muito querido, que defendia a mudança do nome do nosso curso para ENGENHARIA VISUAL (no lugar de COMUNICAÇÃO VISUAL), para que tivéssemo o status que a engenharia tem. Isto foi na década de 1990, antes do fenomeno do Design Thinking, quando descobrimos que esta é a maior contribuição do Design: o nao enquadramento, este lugar de transito e  diálogo entre disciplinas.
Desde que comecei a estudar a fundo as contribuições do Design Thinking para as organizações, ficou muito claro que o DT é o elo entre a mentalidade industrial (pensamento essencialmente linear) e o pensamento complexo (sem o qual não conseguimos compreender este mundo delicioso e louco que criamos, especialmente apos o advento das tecnologias digitais em rede).  E que Design Thinking é, essencialmente, uma visão de mundo. Não adianta insistir em ver resultados duradouros em DT qdo ele é confinado em uma mentalidade industrial. Já dei uma palestra sobre isso no Global Forum há 2 anos, mas a moda continua. É uma discussão longa e profunda. Mas aqui, quero focar na questão de que o DT não é um fim, mas uma proposta de transição de mentalidade, em um processo que culmina na reinvenção do próprio design thinking, visto que este nasce com a Revolução Industrial e tem, portanto, seus limites. Nossa urgencia é por uma compreensão dos fenomenos complexos, mas como disse o mestre Humberto Mariotti, é impossível passar do pensamento linear ao complexo imediatamente. Antes, devemos desenvolver uma visão sistêmica do mundo. O Design Thinking ajuda muito nesta tarefa e aqui deveria residir o interesse das lideranças, do RH, dos Governos, das Escolas.
Buscando outras mentalidades mais abertas, nos deparamos com o Renascimento. Que período único nos deu Da Vinci, Michelangelo, Donatello! Observando a forma de viver destes singulares e, melhor, vendo o que esta Era produziu, não podemos deixar de questionar o que afinal existiu de tão especial neste momento histórico. Então, me deparo, hoje, com uma edição da Bravo, em que o próprio Lorenzo Mammì, tenta explicar como o Renascimento criou a ideia de arte que temos hoje. 
Vejam este trecho com grifos meus:

Afinal, o que faz da arte italiana dos séculos 15 e 16 algo tão especial? Talvez seja melhor deixar de lado as teorias gerais e ver o que os artistas da época e os intelectuais próximos a eles achavam do que estava acontecendo. (…)

Antonio Manetti (se ele é, como tudo indica, autor de Vida de Filippo Brunelleschi, por volta de 1485) define esses inventores como “mestres de artes mistas e de engenho”. Artes, na Florença da época, eram as corporações de artesãos e comerciantes que governavam a cidade desde o século 14. Além delas, com maior prestígio (se não com maior poder), havia as artes liberais, que se aprendiam pelos livros e não pela experiência prática. Os “mestres de artes mistas” não eram uma coisa nem outra. Já não se identificavam com o saber artesanal das corporações, transmitido de pai para filho; tampouco com o saber escolar dos acadêmicos. Buscavam conhecimentos empíricos, quando necessário (engenharia, fundição dos metais, fabricação de cores), embora não se restringissem a nenhuma das profissões tradicionais. Em sua maioria, não liam latim, mas dispunham de tratados de ótica e geometria traduzidos e consultavam cientistas e matemáticos sempre que fosse preciso. Eram leitores vorazes da nova literatura em vulgar (Dante, Petrarca, Boccaccio) e estudavam história. A cultura deles se definia em função dos projetos em que estavam envolvidos – uma igreja, um monumento, um quadro. Enfim, não eram nem artesãos nem filósofos. Pela primeira vez na história, eram artistas.

Manetti descreve esses inventores depois de um jantar em 1409, sentados em volta de uma lareira, enquanto “ora privadamente, ora todos juntos, discutiam coisas variadas e agradáveis, conferindo entre eles a maior parte de sua arte e profissão”. As corporações de ofício guardavam seus procedimentos como segredos, os acadêmicos falavam de uma cátedra. Eles trocavam ideias. Não adianta procurar um traço, um estilo igual para todos: cada um era portador de uma maneira singular de conhecer e descrever o mundo – e isso também é novidade.

Tinham, porém, um método em comum.

Mas enquanto os antigos tiveram muitos mestres para imitar, eles precisaram reinventar. “Nós”, diz Alberti, incluindo-se no grupo, “descobrimos artes e ciências jamais ouvidas e vistas.” 

Resumindo:

Eles trocavam idéias. Não tinham nada em comum ao nao ser um método. E cada um tinha seu posicionamento. E como não tinham mestres, inventaram uma Era. Eram autores!

Entao, já que comecei  com uma citação do Seth Godin, termino indicando seu livro A ILUSÃO DE ÍCARO.

“Segundo o autor, arte não é um gene ou talento específico, é uma atitude disponível a todos que tenham uma visão que os demais não têm e coragem para fazer algo a respeito. Steve Jobs foi um artista, assim como Henry Ford e Martin Luther King Jr. ”

Enjoy!

 

;)